2009/08/07

SOTURNA MANHÃ

Eu não queria que raio de luz nenhum invadisse o meu quarto, mas implacável, tal como o tempo que corre, aquela manhã violou minha cortina por entre as frestas, desde o nascimento eu desejava, involuntariamente, que aquele dia fosse abortado. Era como se eu pudesse prever a tristeza que aquela manhã carregava em seu ventre, antes mesmo de eu saber o quanto seria tomada por um silêncio ensurdecedor, eu permanecia calada.
Você voltou da rua com os mesmos pães de queijo, alguns pães frescos, frutas e tudo o mais que comprava em manhãs de sábado para o nosso café. Mas os seus olhos, esses eu não reconheci. Trazia qualquer coisa como uma amargura lancinante e uma esperança de vida que há tanto você não tinha. E eu sabia que os traços de esperança nada tinham a ver comigo, nem conosco, nem com o café da manhã de sábado, de todos os sábados. Eu sabia também que aquele dia jamais deveria ter nascido, eu senti quando o sol invadiu a casa e eu não te encontrei na cama, eu senti, meu amor, toda a tristeza que aquele dia tinha, amarga como os pães que você me trouxe.
E do meio de uma mudez matinal, dessas de café da manhã de sábado, eu ouvi suas reclamações, não soavam como um pedido de socorro, mas como um pedido de desculpa que antecipava as suas justificativas. Ouvi seu choro misericordioso, a mala pronta, recebi o abraço que antevia a morte e escutei o barulho da porta batendo, fechando dentro da casa uma alma vazia, um aleijo. Arrancou-me um braço.
Mais tarde, não consigo lembrar quantas horas ou dias depois, mas me lembro que levantei, fui até a cozinha e os pães e frutas ainda estavam sobre a mesa. Fazia frio, mas eu não sentia nada, não sentia o frio ou a fome, não sentia o tempo correr por entre as frestas da cortina, só sentia doer o braço arrancado de mim.
A sua ausência era como a falta dos sentidos. A soturna manhã transformou a minha vida em um universo sem som, sem cheiro, sem cor e sem gosto. Há muito eu havia me habituado aos seus barulhos e canções, aos cheiros do seu banho e perfume, ao gosto da sua saliva misturado ao cheiro das frutas que você comia pela manhã. Minha casa estava gris desde que aquela porta se fechou.
Não sei dizer quando foi que eu deixei de odiar as manhãs, todas elas, não só as de sábado. Só sinto que não as odeio mais, é como olhar para o assassino de um filho e sentir piedade, ou não sentir nada. Houve um momento no meio do caminho em que eu pude não pensar em você, mas isso causava em mim uma certa estranheza, eu não me reconhecia ali. Mas me acostumei a não olhar a vida pelos seus olhos, eu deixei de olhar a vida.
As fechaduras das portas, os cadeados, todas as trancas da casa permaneciam intactas, pois eu lembrava de ter visto você levando as suas chaves e isso, de alguma forma, me trazia algum alento. Era a esperança cega que eu tinha em vê-lo entrar, num dia qualquer, colorindo a casa e enchendo-a de você.
Parei de contar o tempo depois do primeiro ano de dias sem manhãs, àquela altura eu já saía para o trabalho, visitava velhos amigos, sorria um pouco, tomava algumas bebidas que não me lembrassem o seu gosto. Eu até viajei, conheci Porto Rico sem que você estivesse ali. É claro que eu lembrava de quando os planos eram de um casamento em San Juan, com cerimônia e tudo quanto eu queria. No entanto, meu bem, eu conheci San Juan e as outras ilhas, tudo isso sem ser pelos seus olhos. Aos poucos, eu me desvencilhava de você.
N’outra noite, não lembro se quarta ou quinta-feira, eu ouvi a porta abrir, senti minha boca amargar, o mesmo gosto que o pão daquela manhã deixou. Era você, e veio sem me dizer nada, me tomou pelos braços sem nenhuma palavra, tinha o mesmo cheiro, o mesmo gosto. Nós nos amamos ali na sala, depois em nossa cama. Eu ouvi você dizer, depois de tantas horas, alguma coisa sobre o universo parar de girar quando era eu quem estava nos seus braços. Eu ouvi suas justificativas antecipando o pedido de volta, como um convite à vida. Mas eu estava morta.
Naquela mesma cama, onde só o meu cheiro te fazia sair do mundo, naquele mundo onde as suas células quiseram todas engolir as minhas, eu pude dizer sem lágrimas mas não sem dor o quanto eu te amei um dia. Eu disse, meu amor, um dia. O dia que tinha manhã, nesse dia e em tantos outros eu te amei.
Não sei em que parte do caminho eu deixei de te amar, mas sei que os dias não voltaram a ter manhã, nem com a sua volta. Eu não fui capaz de amá-lo outra vez, o meu amor engoliu a si mesmo, deixando em mim uma fotografia daquelas horas em que esteve comigo, compondo o álbum de retratos da vida que tivemos juntos. Em minha boca restou apenas o gosto do pão.

2 comentários:

Dri Soncella disse...

Simplesmente lindo!!! Simplesmente Gabi... bjs

Mi disse...

sem sombra de duvidas retrata tudo aquilo que eu vivi um dia ... é a nossa hitoriaa ...